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Maria Helena Pacheco

HISTÓRIA

"Todo o comércio no final da década de 60 era concentrado no centro da cidade de Vitória. Lojas de tecido, sapatarias, armarinhos, camisarias e alfaiatarias. A primeira loja de departamento que se chamava Magazin Helal recebia na Jeronimo Monteiro os consumidores da época. Doll Esporte, na Rua Sete, foi a primeira loja que poderia ser chamada de boutique.

 

Na Praia do Canto a única loja que, nesse período, era a MR, na Chapot Presvot. Globalização não se sabia o que era. Produtos importados eram sonho para muita gente.

 

Foi nesse panorama que na primavera de 1970 abri minha primeira loja, na garagem de minha casa na Av. Desembargados Santos Neves, onde fiquei por 20 anos. Primeiro vendendo apenas acessórios e alguns artigos importados. Perfumes, maquiagens, relógios, perucas Kane Kalon e túnica indiana, que representava o auge daqueles tempos.

 

A moda no Brasil se resumia ao que era vendido na Fenit de São Paulo. Roupa dirigida a um comércio massificado sem direito à fabricação diferenciada. O período representou o tempo áureo das costureiras, auge das costureiras onde clientes - que na época se chamavam freguesas – escolhiam seus modelos

 

Verdadeiras feiras de moda somente começaram a aparecer no final dos anos 70. As primeiras foram realizadas nos hotéis de São Conrado, assim como os primeiros desfiles aconteciam no Copacabana Palace. Isto influenciou o surgimento das primeiras boutiques, e percebendo o movimento, minha “Importadora da Praia”, antes dedicada a acessórios e outros importados, passou a oferecer roupas, ou melhor, moda para as clientes.

 

No início dos anos 80, de um início amador, a moda brasileira se profissionalizou e os eventos ganharam em grandeza. A indústria têxtil tomou grande impulso e como consequência houve a proliferação de confecções menores, produzindo peças com melhor acabamento e para um público mais restrito. A oferta veio a atender à demanda, saciando o apetite de um crescente mercado consumidor que desenvolvia exigência e senso crítico.

 

Em 1990 abri nova loja na Rua Aleixo Neto, com concepções modernas, e tentei aplicar ao mercado de Vitória os mesmos modelos de gestão e de atendimento que pude presenciar nas principais boutiques do Rio e de São Paulo. Sempre tive o hábito de pesquisar, fazer perguntas e buscar incessantemente a informação do que ocorria e do que estava para acontecer. Busquei referências e nunca tive medo de me influenciar pelas boas ideias e boas práticas que observava nas constantes viagens que fazia aos centros de moda do país e, em alguns casos, até do exterior.

 

As boutiques se sofisticaram, e tentei identificar essa mudança e aplica-la ao meu negócio. A moda brasileira começou a se destacar e foi paulatinamente ocupando seu espaço, até que no fim dos anos 90 atingiu grandes proporções, com o “boom” das “top models” e dos super estilistas, invadindo o mercado internacional. Agora sim perfeitamente globalizado.

 

Todo esse movimento, das costureiras de bairro aos estilistas internacionais, foi causa e foi consequência da liberação da mulher, que passou a ter mais escolhas e mais informação: trabalhar ou cuidar da casa, saia curta abaixo do joelho ou saia longa, opções não mais faltavam. De uma hora para outra, a informação passou a ser imediata, e o consumidor de cidades pequenas, meramente consumidoras de moda, tal como Vitória, tinha acesso imediato ao que acontecia nos grandes centros e não queria, nem por um minuto sequer, se destoar das tendências e das mudanças da moda internacional.

 

Ter informação passou a ser sinônimo de ter produto. As boutiques, antes possuidoras de mercadorias, passaram a ser centros de recepção de informações sobre a moda, necessitando de agilidade e flexibilidade. Por isso, minha escolha foi priorizar o treinamento da equipe e colocar as necessidades do cliente sempre em primeiro lugar. Oferecer ao público local, de forma absolutamente simultânea, o mesmo que era oferecido nos grandes centros e, além disso, filtrar os produtos mais adequados aos hábitos e ao clima locais, sempre com um atendimento eficiente e profissional. Este, no meu modo de ver, o diferencial mais importante e mais difícil de se atingir.

 

Vivi momentos de progresso e de caos no mercado e na profissão. Testemunhei vários planos, como o sempre lembrado Collor, quando o confisco generalizado retirou o poder de compra da população; foi o único dia útil de minha vida no qual não vendi uma peça sequer!

 

Em todos esses anos, lidei com cinco moedas distintas, cruzeiro, cruzado, cruzado novo, cruzeiro outra vez e, finalmente, o real. Vi mudanças no mercado e, principalmente, mudanças no consumidor. Mudei do mesmo modo que minhas clientes mudaram, e busquei informação na mesma medida em que a informação chegava a elas. Tentei sempre ser um agente do tempo em que vivi, e me adaptar às mudanças, fazer parte delas e não ser engolida pelo carrossel da história, como tantos foram no mercado e como muitas vezes presenciei.

 

Hoje me considero uma sobrevivente e quando me perguntam como consegui, respondo: com muito trabalho, nada de glamour: sangue fenício, equipe coesa e profissional e a prática de duas regras fundamentais: 1ª – O cliente sempre tem razão; 2ª – Se não, volte a regra número um. Espero continuar assim, agora com a participação de minha filha Renata , que há dois anos passei o comando da loja."

 

Maria Helena Pacheco (2016).

 

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